ocasião
eu hospedava uma amiga riojana, que morou na França por um bom
tempo, passou pela minha cabeça que um rótulo francês
seria a melhor escolha. Quis “impressionar” e então
optei por um Beaujolais.
Tudo correu muito bem até o momento de servir
o vinho. Ao abrir a garrafa notei que o vinho estava “aguado”,
mas como não tinha outra garrafa à disposição
fingi que nada acontecia. Discretamente levei a taça ao nariz e
senti um aroma muito agradável. Aliviada e sem entender nada ofereci
o vinho aos meus convidados. Mal sabia que o pior estava por acontecer,
pois a combinação de carne vermelha bem temperada com Beaujolais
Noveau só poderia ser um desastre... Um gosto de azedo dominou
nossa noite. Para meu alívio, ninguém fez comentário
algum; até hoje não sei se por educação ou
se por desconhecimento. Só eu, porém, sabia o quanto me
senti embaraçada em escolher uma simples bebida. Disse para mim
mesma: “Preciso aprender alguma coisa sobre vinhos...”
Quer dizer então que foi a gafe que
te fez procurar o conhecimento?
Sim, o fato foi determinante para o que faço hoje. Sem ele minha
vida não teria caminhado nesta direção. “A
vergonha é a mãe do aprendizado”, já dizia
Nietzsche. Para o bem ou para o mal, foi ela – a vergonha –
que me levou à enofilia. Comecei participando de degustações
da Associação Brasileira de Sommeliers de Campinas. Daí
em diante tive uma idéia melhor do porquê da dificuldade
em escolher um bom vinho. Não satisfeita, visitei feiras e premiações
de vinhos – até realizar a extensão universitária
com formação em Sommelier, pelo SENAC Sorocaba. Não
tinha mais volta, estava apaixonada pela bebida.
A história que você contou foi
como anfitriã, ainda leiga no assunto; hoje, profissionalmente,
como você explica o que aconteceu?
É simples. A gafe ocorreu porque a bebida era incompatível
com o prato. Harmonização é alquimia; é fundamental
buscar o equilíbrio entre prato e bebida, compatibilização
é uma experiência em que ambos, prato e vinho, se mostram
muito melhores do que desacompanhados. Beaujolais é um vinho fresco,
tem corpo leve, chega a ser transparente na taça (daí eu
achar que estava “aguado”). É um vinho que pode ser
apreciado sem acompanhamento de prato, basta um pão fresquinho,
um patê ou um queijo brie, mas pode também ser servido com
um peito de peru ou um peixe.
Vinho bom tem que ser caro?
Não. Um bom vinho é aquele que tem todas as suas características
bem equilibradas, onde a acidez, os açúcares e os taninos
estão bem ajustados. Está provado que o primeiro e primordial
fator para se obter um bom vinho é a uva, que também é
o princípio do custo do vinho. É importante considerar que
toda qualidade de trabalho requerida nos diversos processos de elaboração
do vinho resultará em uma bebida de qualidade superior, com características
e personalidade marcantes.
Qual a diferença entre um enólogo
e um sommelier?
O enólogo é o profissional que faz o vinho. O sommelier
é um consultor, um degustador profissional de rótulos do
mundo todo.
E o enófilo?
Dizemos que é um amigo do vinho, aquele que se dedica profissionalmente
ou por prazer a estudar o maravilhoso mundo dos vinhos. Conseqüentemente
o enólogo e o sommelier são enófilos.
O que é necessário para ser
um conhecedor de vinhos?
É preciso ser sensitivo e gostar do belo, prestar atenção
para refinar o paladar e treinar a memória olfativa. Mas principalmente
penso que é preciso ter paixão, o que não é
resultado de estudo, é talento para viver a vida.
Talento para viver a vida. Isso define sua
personalidade?
Hummm. Já fui mais audaciosa, hoje estou mais madura, mas é
por conta da paixão que estou aqui, valorizo os detalhes que compõem
meu universo. Vinho é isso.
Qual é seu campo de trabalho?
Ministro cursos, monto cartas para restaurantes, faço gestão
da Confraria Filhos da Rolha, constituída há um ano em Indaiatuba,
presto consultoria personalizada etc. Ou seja, ganho o pão degustando
vinhos.
Então você é uma pessoa
feliz?
Sim, muito feliz. O mundo do vinho é instigante e só proporciona
coisas boas: amizades, sensações prazerosas, conhecimento
de história, geografia etc. É difícil enumerar as
alegrias, pois no meu caso o vinho me levou até ao encontro de
um grande amor.
Um grande amor?
Isso mesmo. Conheci Marcello, meu marido, numa insólita degustação
de vinhos.
Qual é o seu vinho preferido?
Gosto de muitos. Já degustei muitos rótulos maravilhosos
e não dá pra falar de um só, o vinho não está
sozinho, é o momento, a companhia, o prato que o acompanha.
Então diga um que lhe marcou.
Um californiano, safra 1998, Concannon, elaborado com Petite Sirah. Degustei
ao lado de um amigo enólogo. É impossível também
descrever as emoções provocadas por um Touriga Nacional,
da Vinícola Angheben, safra 2005, apreciado ao lado do meu Chileno...
Jornal Semana em Destaque (Indaiatuba-SP) -
Entrevista Ago/2008
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