Perfil | Entrevista

Comunicativa, alegre, ousada... Ela, que já atuou como secretária e pedagoga, diz que nunca sentiu tanto prazer numa profissão como sente agora. Acompanhe a entrevista com Josi Pieri - sommelière.

Josi, como surgiu seu interesse pelo mundo do vinho?
De certo modo, foi por conta da vergonha... Há cerca de oito anos recebi um casal de amigos para jantar. E como boa anfitriã que sou, cuidei de todos os detalhes: a disposição da mesa, as entradas, o prato principal, a sobremesa e o vinho. Como na

 

ocasião eu hospedava uma amiga riojana, que morou na França por um bom tempo, passou pela minha cabeça que um rótulo francês seria a melhor escolha. Quis “impressionar” e então optei por um Beaujolais.

Tudo correu muito bem até o momento de servir o vinho. Ao abrir a garrafa notei que o vinho estava “aguado”, mas como não tinha outra garrafa à disposição fingi que nada acontecia. Discretamente levei a taça ao nariz e senti um aroma muito agradável. Aliviada e sem entender nada ofereci o vinho aos meus convidados. Mal sabia que o pior estava por acontecer, pois a combinação de carne vermelha bem temperada com Beaujolais Noveau só poderia ser um desastre... Um gosto de azedo dominou nossa noite. Para meu alívio, ninguém fez comentário algum; até hoje não sei se por educação ou se por desconhecimento. Só eu, porém, sabia o quanto me senti embaraçada em escolher uma simples bebida. Disse para mim mesma: “Preciso aprender alguma coisa sobre vinhos...”

Quer dizer então que foi a gafe que te fez procurar o conhecimento?
Sim, o fato foi determinante para o que faço hoje. Sem ele minha vida não teria caminhado nesta direção. “A vergonha é a mãe do aprendizado”, já dizia Nietzsche. Para o bem ou para o mal, foi ela – a vergonha – que me levou à enofilia. Comecei participando de degustações da Associação Brasileira de Sommeliers de Campinas. Daí em diante tive uma idéia melhor do porquê da dificuldade em escolher um bom vinho. Não satisfeita, visitei feiras e premiações de vinhos – até realizar a extensão universitária com formação em Sommelier, pelo SENAC Sorocaba. Não tinha mais volta, estava apaixonada pela bebida.

A história que você contou foi como anfitriã, ainda leiga no assunto; hoje, profissionalmente, como você explica o que aconteceu?
É simples. A gafe ocorreu porque a bebida era incompatível com o prato. Harmonização é alquimia; é fundamental buscar o equilíbrio entre prato e bebida, compatibilização é uma experiência em que ambos, prato e vinho, se mostram muito melhores do que desacompanhados. Beaujolais é um vinho fresco, tem corpo leve, chega a ser transparente na taça (daí eu achar que estava “aguado”). É um vinho que pode ser apreciado sem acompanhamento de prato, basta um pão fresquinho, um patê ou um queijo brie, mas pode também ser servido com um peito de peru ou um peixe.

Vinho bom tem que ser caro?
Não. Um bom vinho é aquele que tem todas as suas características bem equilibradas, onde a acidez, os açúcares e os taninos estão bem ajustados. Está provado que o primeiro e primordial fator para se obter um bom vinho é a uva, que também é o princípio do custo do vinho. É importante considerar que toda qualidade de trabalho requerida nos diversos processos de elaboração do vinho resultará em uma bebida de qualidade superior, com características e personalidade marcantes.

Qual a diferença entre um enólogo e um sommelier?
O enólogo é o profissional que faz o vinho. O sommelier é um consultor, um degustador profissional de rótulos do mundo todo.

E o enófilo?
Dizemos que é um amigo do vinho, aquele que se dedica profissionalmente ou por prazer a estudar o maravilhoso mundo dos vinhos. Conseqüentemente o enólogo e o sommelier são enófilos.

O que é necessário para ser um conhecedor de vinhos?
É preciso ser sensitivo e gostar do belo, prestar atenção para refinar o paladar e treinar a memória olfativa. Mas principalmente penso que é preciso ter paixão, o que não é resultado de estudo, é talento para viver a vida.

Talento para viver a vida. Isso define sua personalidade?
Hummm. Já fui mais audaciosa, hoje estou mais madura, mas é por conta da paixão que estou aqui, valorizo os detalhes que compõem meu universo. Vinho é isso.

Qual é seu campo de trabalho?
Ministro cursos, monto cartas para restaurantes, faço gestão da Confraria Filhos da Rolha, constituída há um ano em Indaiatuba, presto consultoria personalizada etc. Ou seja, ganho o pão degustando vinhos.

Então você é uma pessoa feliz?
Sim, muito feliz. O mundo do vinho é instigante e só proporciona coisas boas: amizades, sensações prazerosas, conhecimento de história, geografia etc. É difícil enumerar as alegrias, pois no meu caso o vinho me levou até ao encontro de um grande amor.

Um grande amor?
Isso mesmo. Conheci Marcello, meu marido, numa insólita degustação de vinhos.

Qual é o seu vinho preferido?
Gosto de muitos. Já degustei muitos rótulos maravilhosos e não dá pra falar de um só, o vinho não está sozinho, é o momento, a companhia, o prato que o acompanha.

Então diga um que lhe marcou.
Um californiano, safra 1998, Concannon, elaborado com Petite Sirah. Degustei ao lado de um amigo enólogo. É impossível também descrever as emoções provocadas por um Touriga Nacional, da Vinícola Angheben, safra 2005, apreciado ao lado do meu Chileno...

Jornal Semana em Destaque (Indaiatuba-SP) - Entrevista Ago/2008

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